“Ser + Criança… Ser + Amor de Deus”

“Ser + Criança… Ser + Amor de Deus”

Ser + Criança…(*)

O mundo sabe que as crianças são seres encantados. Encantados e encantadores. Trazem sempre magia no olhar e esperança nas maçãs avermelhadas do rosto. Cada vez que os olhos de uma criança brilham o mundo rasga um sorriso de orelha a orelha. É que os olhos de uma criança brilham com facilidade, com a simplicidade das coisas pequenas, com a sonoridade de palavras que aquecem o coração. Os olhos de uma criança brilham com uma bola feita de trapos, com uma boneca zarolha, com uma garagem de papelão, com uma caixinha de botões ou com uma canja de galinha feita pela avó (são sempre as que sabem melhor!).

As crianças são encantadores de esperança. Serpenteiam gargalhadas contagiantes. São flautistas da melodia da nossa vida, inventam histórias de todas as cores, dão nomes às estrelas, riem-se do nada e colecionam bichos e sonhos. Guardam nos bolsos significados que os outros não entendem mas que servem para fantasiar. A sua vida é muito agitada e agitam todos os que lhe dão vida. Têm um formigueiro na ponta dos dedos e esticam, e esticam e esticam as horas de descansar.

As crianças têm habilidades inatas que nos hipnotizam…até o ruído melódico do seu choro provoca em nós sensações que desconhecíamos existir. Muitas vezes deixam-nos boquiabertos com tanta sabedoria.
Ser + Criança é ser mais brincador, mais apaixonado, mais criativo, mais saudável, mais sensível à natureza, mais forte…ser + Criança é ser mais Deus. O valor da espiritualidade faz dela um ser único, livre, comprometido e alegre. Ser Criança é ser mais AMOR DE DEUS.

1.  Ser + Criança é ser um Brincador!

O ato de brincar é tão vital como respirar, comer ou dormir. Brincar é portanto uma necessidade básica. A brincadeira pressupõe AÇÃO. A brincadeira é conhecimento, aprendizagem, cooperação, socialização, autoconhecimento, jogo, ludicidade, liberdade(…) Brincar é mesmo uma coisa muito séria!
Brincar não é entreter. Brincar não é distrair. Brincar não é ficar ali. Brincar não é vigiar. Brincar não é perder tempo. Brincar é um direito à sobrevivência. Brincar é relação, partilha, interpretação, comunicação, descoberta do eu, do outro, do mundo e este mundo está povoado de brincadores. Brincar devia ser uma terapêutica para seguir sem interrupções. Mais que 3 vezes ao dia e sem doses recomendadas… reforço, cem doses recomendadas!
A atividade lúdica é um camião de aprendizagens. Uma construção feita de megablocos de sensações. Um puzzle de interações, difíceis, mas onde todas se encaixam. Brincar não tem código de barras e todos os relógios do Universo deviam perder os ponteiros na hora de brincar. Na hora de brincar as estrelas deviam adormecer, o sol podia apanhar um escaldão e a terra continuava a girar como um carrocel. Os comandos nunca teriam pilhas e as mães nunca diziam “agora estou a fazer o jantar!”. Porque na hora de brincar, talvez não saibam, as crianças nunca têm fome.
A criança brincadora é livre. A criança brincadora é autónoma. A criança brincadora é alegre. A criança brincadora é inteligente. A criança brincadora é feliz. E um Estado, que passa a vida a brincar, devia dar mais tempo à criança para o fazer, porque brincar é intemporal e também… um Estado de espírito!

Poema “O Brincador” Álvaro de Magalhães

«Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja no que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador…
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.»

2.  Ser + Criança… é ser mais Apaixonado
A criança apaixona-se por tudo o que lhe dá prazer. A criança apaixona-se pela vida. Ainda que tenra e desconhecida, ainda que breve e questionada, a vida de uma criança é vivida apaixonadamente. Alimenta-se do amor, do sabor, do brilho onde o seu olhar se perde. Apaixona-se pela música, pelas coisas, pelas pessoas, pelas flores e pelas danças. Apaixona-se pelas mãos que lhe afagam os afetos, pelo pedacinho de papel que lhe enxuga as lágrimas do desconsolo, apaixona-se pelas palavras novas que não têm significado. As crianças apaixonam-se pela gratidão, pela alegria, pela folha do outono, pelo chapéu de Fernando Pessoa ou por um avião de papel.
As crianças apaixonam-se pela felicidade de quem lhes quer bem…
As crianças apaixonam-se inteiramente…
…porque para elas, afinal, o mundo é feliz!

Poema de Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

3.  Ser + Criança é ser mais Criativo
A criatividade acontece quando os olhos, o corpo, a mente e o coração de uma criança se enlaçam na arte das palavras, da música, da pintura, do teatro, da dança.
Quando as crianças se fazem personagens de uma história, esculturas de uma cidade, ou paisagens de uma fotografia.
Quando se deixam tocar pelas cores da vida de Frida Kahlo, pela geometria de Mondrian ou pelos pontos de vista de Yayoi Kusama.
A criatividade acontece quando os movimentos do corpo se harmonizam, quando de um pincel nasce uma ideia, ou quando a relação com os outros e com a própria vida se transforma em criação.
E quando todas as cem linguagens da criança se fazem ouvir nasce uma melodia que a faz ser + criança.

“As cem linguagens da criança”

A criança é feita
A criança tem cem linguagens
Cem mãos cem pensamentos
Cem maneiras de pensar
De brincar e de falar
Cem sempre cem
Maneiras de ouvir
De surpreender de amar
Cem alegrias para cantar e perceber
Cem mundos para descobrir
Cem mundos para inventar
Cem mundos para sonhar.
A criança tem
Cem linguagens
(e mais cem, cem, cem)
Mas roubam-lhe noventa e nove
Separam-lhe a cabeça do corpo
Dizem-lhe:
Para pensar sem mãos, para ouvir sem falar
Para compreender sem alegria
Para amar e para se admirar só no Natal e na Páscoa.
Dizem-lhe:
Para descobrir o mundo que já existe.
E de cem roubam-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:

Que o jogo e o trabalho, a realidade e a fantasia
A ciência e a imaginação
O céu e a terra, a razão e o sonho
São coisas que não estão bem juntas
Ou seja, dizem-lhe que os cem não existem.
E a criança por sua vez repete: os cem existem!
Loris Malaguzzi (1996)

4.  Ser+ Criança é ser mais Saudável
Dizem que as crianças gostam de doces e chocolates, constroem casas com chupa-chupas e fazem festas em bolos de aniversário. Mas também dizem que continuam a fazer brincos com cerejas, barcos com cascas de noz e a dar cenouras aos coelhos. Tratam os rebuçados por tu e multiplicam sorrisos de açúcar. Mas também é verdade que percorrem florestas de brócolos à procura de vitaminas, encontram tesouros em taças de cereais e travam duelos em pratos de peixe espada. As crianças sabem ser saudáveis. Os crescidos querem que elas sejam saudáveis. Mas os crescidos é que as alimentam. Então, os crescidos têm que ler mais livros detox. E as crianças têm que lhes ensinar que ser saudável é comprar ações de movimento numa bolsa de valores, vender um sofá no OLX, trocar um comando por uma corrida na praia ou derreter calorias num ginásio.

5.  Ser + Criança é ser mais ecológico
As crianças são e(s)cológicas. Gostam da escola e gostam da natureza. Ou não fossem elas pequenas aves de rapina, de bicos falantes, garras fortes e visão de longo alcance. O ambiente desperta-as, provoca-as, deslumbra-as. Ou não fossem elas pequenos ribeiros que serpenteiam as montanhas ao encontro do mar. São sensíveis à natureza e a todo o universo que as rodeia. Ou não fossem elas rochas sólidas e cheias de minerais. São mais conscientes e já nasceram num planeta alterado pelos crescidos. Cabe-lhes cuidar, alertar, mudar mentalidades, implicar e implicarem-se. Elas são vulcões em erupção de conhecimento e arco íris de aprendizagens. A Natureza é a sua casa e a sua casa é o seu ambiente. Há que preservá-lo.

6.  Ser + Criança é ser mais Forte
Se dúvidas houver, uma criança é um ser “Paranormal”, superior, que tem forças e formas de agir (des)conhecidas. Apesar de haver estudos científicos sobre o comportamento deste ser espacial, ou melhor, especial, ele é sempre questionável e deixa nos estudiosos muitas interrogações. Só quem com ele convive e se relaciona é capaz de dar algumas respostas sobre a grande variedade de fenómenos que acontecem com este ser sobrenatural. Ele vai para lá do nor-mal!
É normal que se saiba comportar, que ande sempre asseado, que comprimente com um ou dois beijinhos, que coma tudo até ao fim e de preferência sem se sujar, que brinque ordeiramente e de preferência sem desarrumar, que seja simpático, que lave os dentes, que não reclame quando chega a hora de ir para a cama, que não entre no quarto dos pais sem pedir licença, que coma de boca fechada, que esteja calada no cinema, que não pergunte cinquenta vezes “Quando é que chegamos?” quando vai em viagem, que não diga “não gosto de ti!”, que não peça repetidamente para ouvir a mesma história todas as noites, que caminhe direito, que não limpe o nariz à manga da camisola, que sorria para os pais quando estes o vão buscar à escola mais cedo e ele ainda não teve tempo para brincar, que fique indiferente aos vocábulos “cocó/xixi”…
Uma criança “Paranormal” suja-se, faz birras, é autêntica, não tem filtros, diz o que pensa sem pensar no que diz, faz perguntas embaraçosas, reclama sempre na hora de dormir, tem mil ideias antes do sono acontecer e deseja também que o dia não acabe(eu acho que quer prolongar a companhia dos pais). Numa criança Paranormal as baterias nunca descarregam. Ela não gosta de perder tempo, porque perder tempo é perder os sonhos, e os sonhos de uma criança Paranormal são tesouros cheios de estrelas. Uma criança “Paranormal” desarruma as brincadeiras, conta piolhos, transforma uma passadeira num tapete de jogo, sabe pelos seus joelhos de que são feitos os muros, gosta de ver os adultos de cabelos em pé fazendo-os sair da sua normalidade.
Uma criança “Paranormal” limpa sempre o nariz à camisola para poupar nos lenços de papel, inunda uma casa de migalhas para que ninguém, lá em casa, se queixe de não ter nada para fazer, fala no cinema para comentar o filme e ri-se de vocábulos escatológicos, só porque gosta de rir!
Será normal? Este comportamento continua a ser alvo de procura de explicações e interpretações da psicologia educacional e das neurociências, mas estes seres ensinam-nos que ser “Paranormal” no tempo de o ser, é tempo ganho para atingir um estádio superior de “para ser normal” que a sociedade esperará dele… porque ele não gosta de perder tempo, porque perder tempo é perder os sonhos, e os sonhos de uma criança “Paranormal” são tesouros cheios de pó de estrelas e de… força, uma força que desperta nelas o poder de um Luke Skywalker, de um Han Solo ou de uma Princesa Leia. Ah…o Darth Vader,esse, socumbiu ao lado sombrio da força.

Ser + Criança é ser mais Amor de Deus
Ouvimos muitas vezes a expressão “Deus é GRANDE”, pois eu cá acho que Deus é pequenino. Pensem comigo. Agora.
A formiga transporta uma migalha como se carregasse o mundo. A estrela pequenina que nos pisca o olho num céu iluminado por outras tantas, também elas pequeninas. A florinha violeta que anuncia a primavera brotando da terra feita de grãos pequeninos. A gotinha de água que se agita num oceano azul cheio de tantas outras igualmente pequeninas. O grão de trigo que alimenta o homem. O grão de sal que lhe dá sabor. O grão de açúcar que o faz mais doce. O raminho que o colibri leva bem preso no bico para construir o seu ninho. A pedrinha que o menino guarda no bolso do bibe, o mineral que veste a rocha de força, a pérola que faz a ostra sorrir ou o diamante que faz a mulher sorrir ainda mais!…
Todas estas pequenas coisas são obra de um Deus que se engrandece aos olhos de uma criança. “Deixai vir a mim as crianças, porque delas é o reino dos céus.” E este reino é feito de coisas pequeninas. Despertar a fé é faze-las contemplar o belo, tocar no precioso, cuidar e proteger o frágil, agarrar o mundo aos pedacinhos. Educar a sensibilidade, o sentido estético, a sua espiritualidade tão pura e genuína, o seu olhar tão sensível e radiante.
Então? Deus é ou não é pequenino?!
Deus revela-se na simplicidade. A grandeza de Deus está no deslumbramento do olhar de uma criança. Está na força da sua crença, na humildade do seu coração e na verdade do seu olhar. Deus transforma o simples no belo, o pequeno no grande, o indefeso no forte, o pouco no muito, o humilde no sábio. E assim florescem os valores.
Lá está…claramente Deus é pequenino e por isso é mais criança.
Concordam?

(*) Guião da Festa da Comunidade Educativa – Pré Escolar