Menção Honrosa – Concurso Uma Aventura… Literária 2020

Menção Honrosa – Concurso Uma Aventura… Literária 2020

O trabalho da aluna Diana Inácio – “O Desejo do Titã” –  foi distinguido com uma Menção Honrosa no concurso Uma Aventura… Literária 2020. 
Na edição deste ano foram entregues mais de 14 mil trabalhos, individuais e de grupo de alunos de escolas de todo o país, incluindo Açores e Madeira e também de escolas de França, Suíça, Macau, Cabo Verde e Brasil.
Segundo Catarina Cruzeiro, do Departamento Comunicação do Grupo Leya, este é o maior concurso do género em Portugal!

Muitos Parabéns Diana Inácio!

Publicamos o texto, na íntegra, da Diana Inácio.

 Título: O Desejo do Titã

Do alto do monte Cáucaso, Prometeu conseguia ver o Olimpo e os deuses que lá habitavam. A dor alucinante a que estava sujeito dia após dia já mal o incomodava e, no entanto, era sempre um alívio quando a águia o deixava em paz, permitindo ao seu fígado regenerar-se através da sua já não desejada imortalidade. Durante o seu cativeiro, não conseguia deixar de pensar no Fogo, a razão pela qual era sujeito a todo aquele sofrimento atroz… elemento interessante este, com um passado deveras diferente. Quase que involuntariamente e como única maneira de escapar ao terrível tempo presente, o titã deixou o pensamento vaguear por um passado muito distante, de quando os deuses decidiram criar o mundo que hoje existe…

 ***

No início, quando tudo era vazio, mais negro que uma noite sem lua e mais frio que o gelo ardente, foram criados os quatro elementos. A Terra, dura e rígida, foi o primeiro elemento a ser criado. Seguiu-se-lhe o Ar, leve e solto, voando alegremente pelo vazio Universo. Em terceiro, formou-se a Água, elegante e bela na sua fluidez dinâmica de rio que corre sem nunca desaguar. Para último, ficou a força mais destrutiva da natureza: o Fogo, com enormes e perigosas chamas de todos os tons de vermelho e amarelo, brando e implacável como uma manhã primaveril ainda apegada aos rigores do Inverno. Juntas, estas quatro forças da natureza tinham uma missão, missão esta conhecida por todos, porque em todos fora gravada para a eternidade em seus corações: trazer a vida ao Universo.

Sem perder tempo, os quatro elementos conferenciaram para decidir as condições ideais para o aparecimento de vida, chegando rapidamente à conclusão de que necessitariam de um suporte, para que os novos seres não pairassem indefinidamente pelo vazio. Assim sendo, a Terra usou o seu poder e criou aglomerados de matéria esféricos e rígidos, aos quais chamou planetas, em tanta quantidade que se tornou impossível contá-los, uns mais pequenos e outros tão grandes que pareciam não acabar. Os outros elementos agitaram-se de espanto e felicidade, mas o espetáculo da Terra ainda não tinha acabado. Escolheu um dos planetas mais próximos e neste desenhou montanhas tão altas que parecia que lhes tocariam se apenas esticassem o braço, vales tão fundos que não se distinguia o fim, planícies que pareciam estender-se até ao infinito e depressões tão grandes que pareciam poder albergar todo o Universo. Mal acabou o seu trabalho, voltou para junto dos companheiros, sendo recebida com grande alegria e admiração pelo conquistado.

Seguidamente, foi a vez do Ar mostrar aquilo que valia. Aproximou-se do mesmo planeta e voou a toda a sua volta, subindo a montanhas, descendo a vales, rodopiando e saltitando numa dança sem fim, enchendo com pedaços de si mesmo toda uma nova atmosfera. Ao acabar, parecia que o planeta estava vivo, mesmo sem vida: o ar movimentava-se em ventos tão fortes que quase arrancavam a própria rocha ou em simples brisas mais leves que a acariciavam suavemente. Quando regressou para junto dos outros, foi acolhido vitorioso, pois já poderiam os novos seres vivos respirar daquele novo ar.

A Água avançou, incitada pelo fogo para ser a seguinte. Tímida e hesitante, chegou ao planeta, percorrendo-o lentamente para decidir o que fazer e, enquanto o fazia, a timidez ia dando lugar a algo mais, deixando transparecer toda a sua tão especial natureza para o exterior. Com olhar brilhante e movimentos precisos, ela criou as nascentes no topo das montanhas, dando-lhes forma, deixando-se alegremente escorrer para e pelos vales. Pura e cristalina, deslizou rocha abaixo, esculpindo-a, quebrando-a e acolhendo-a no seu seio. Fez os rios desaguarem nas depressões criadas pela Terra, lá no infinito, formando os grandes oceanos, ou mesmo até pequenos lagos, enchendo aquele mundo de mil reflexos vitrais. Mais rapidamente do que o espectável, o seu trabalho foi chegando perto do fim e, lá longe onde tudo era ainda vazio, o Fogo assistia boquiaberto. Observava a Água fluir gentilmente de montanha para rocha, de rio para mar e de lago para terra, deixando-se absorver pelo processo e hipnotizar pela sua poderosa dança de ninfa. Assim, sem se dar conta, o Fogo deixou-se apaixonar pela água. Quando ela voltou, foi recebida como os outros haviam sido recebidos, como alguém que cumprira o seu trabalho com sucesso e distinção, mas, desta vez, algo diferente acontecera.

Após o regresso da Água, rapidamente o planeta se encheu de pequenas formas de vida, que iam evoluindo para formas maiores, seres que começaram por colonizar o oceano, mas que se foram alastrando para terra. Os elementos observaram o nascimento das primeiras formas de vida deliciados e vitoriosos… todos exceto o Fogo, que em nada contribuíra para aquele sucesso. Sem refletir e querendo mais que tudo impressionar a Água, este elemento avançou para o planeta cheio de vida e fez a sua magia, mas logo que lá chegou algo terrível aconteceu. Assim que tocou as montanhas como a Água fizera, estas transformaram-se em enormes vulcões cuspidores de lava e enormes explosões de fogo e rocha assolaram o que outrora havia sido um paraíso. Aflito, o Fogo tentou emendar o seu erro, mas por onde quer que passasse emergiam enormes e mortíferas labaredas que consumiam tudo à sua passagem, num caos de destruição nunca antes visto. Numa questão de segundos, tudo aquilo que os outros haviam construído ficou em ruínas. Toda a vida anteriormente conquistada desaparecera. A rocha tornara-se negra, a água envenenada e o ar tóxico.

O Fogo voltou para junto dos outros sem saber o que fazer nem o que dizer. A Terra e o Ar estavam furiosos com ele e a Água encontrava-se atrás dos companheiros, cabisbaixa. Ele avançou para ela para se tentar explicar, mas assim que lhe tocou ela recuou ferida, pois, inadvertidamente, evaporara uma parte dela com o seu calor. Com tudo o que sucedera, a Terra e o Ar mandaram o fogo exilar-se sozinho no maior dos planetas mais próximos, onde poderia causar todos os danos que quisesse sem prejudicar ninguém. A Água olhou-o com tristeza, mas nada disse que contradissesse aquela decisão e o Fogo não a queria voltar a magoar, por isso foi-se dali, abandonando os companheiros e a missão.

Os três elementos restantes limparam com grande esforço toda a destruição causada pelo fogo, sem pausas nem descansos. Quando tudo estava igual a quando tinham começado, os três elementos refizeram o que fora destruído e voltaram a assistir ao aparecimento de vida, mas, quando tudo parecia estar a correr na perfeição, a água começou a congelar e o ar, de tão frio e escuro que se tornou despedaçava a vida com a facilidade de cem navalhas. Num abrir e fechar de olhos, toda a vida desaparecera de novo, sem que os três companheiros percebessem como nem porquê. Repetiram o processo outra vez e outra vez e ainda outra vez, mas o final era sempre o mesmo, para seu grande desespero.

Entretanto, o Fogo assistia a todos aqueles fracassos do seu solitário planeta gigante. Ele já se fora embora, porque é que os amigos continuariam a falhar? Que mais seria preciso? Imediatamente a resposta assolou-lhe a mente: luz e calor. Não existe vida nas trevas e certamente que também não naquele frio gelado do Universo. Já sabia o que tinha de fazer, mas a mente não esquecia todo o mal que provocara… tinha medo de que tudo aquilo pudesse acontecer de novo. “O medo só tem o poder que cada um lhe concede”, repetia de si para si, “E o único que lhe pode retirar esse poder sou eu, ninguém o pode fazer por mim… não posso deixar que me impeça de fazer aquilo que é preciso.”

Rapidamente e sem mais rodeios, o Fogo libertou todo o seu poder naquele seu planeta, fundiu rocha, lançou chamas e não descansou até que todo aquele planeta gigante ardesse em grandes explosões que chegassem mais alto que as montanhas. Os outros assistiram enquanto o Universo se iluminava, enquanto o gelo recém-formado no pequeno planeta derretia, enquanto o ar aquecia e enquanto a vida brotava de novo, mais viçosa do que nunca, para nunca mais abandonar aquele planeta. Naquele momento, o Fogo percebeu que a sua força era de outro tipo, de um tipo diferente da dos outros, mas igualmente importante. Quando tentara fazer aquilo que os outros faziam fora uma desgraça, mas era o seu papel destacar-se e ser especial à sua própria maneira. Fora para isso que havia sido criado juntamente com os outros. Saiu do planeta gigante em chamas, ao qual chamou Sol, em direção ao pequeno planeta cheio de vida. Pelo canto do olho conseguiu ver os outros e tentar impedi-lo de lá chegar, mas não se importou, sentou-se no solo fresco e aqueceu o planeta até ao seu centro. Os outros, apercebendo-se daquilo que ele fazia, encheram-se de espanto e maravilha. Alguns pequenos vulcões surgiam de vez em quando em pontos muito especiais do globo, enquanto o Fogo dava vida ao próprio planeta, fazendo o planeta girar sobre si mesmo e a sua superfície mover-se, quase indetetavelmente para os seres que nela habitavam, criando correntes de lava no seu interior, que rodeavam o seu coração, o núcleo de toda a vida.

Os quatro elementos reuniram-se de novo e a Terra, juntamente com o Ar, congratulou o Fogo por todos os feitos incríveis que concretizara. A Água, tímida, como era a sua natureza, aproximou-se e tocou-o, ignorando a dor que lhe provocava. Juntos, estes dois elementos dançaram por todo o planeta, no meio da vida que haviam ajudado a formar. A cada toque, a cada volta, a cada paço, a Água evaporava mais um pouco, mas não se importava, pois também se apaixonara pelo fogo. Dançaram e dançaram e dançaram, até que a Água desapareceu por completo, deixando um rasto de vapor no ar, que ascendeu formando grandes nuvens negras. O Fogo olhou o céu cinzento e chorou, pois já mais poderia dançar com a Água de novo… até que algo mágico aconteceu: Largas gotas de água começaram a cair das nuvens, com um som semelhante ao crepitar das chamas e, à medida que a cinza do céu se ia desvanecendo, a Água ia voltando a ganhar forma, mais pura e mais brilhante que nunca.

Felizes, os quatro elementos percorreram todo o Universo, com o Fogo a acender Sois pelo caminho, trazendo vida ao vazio e, ainda hoje, é possível observar o amor do Fogo e da Água em cada chuva que cai cada vez que eles descem ao mundo para mais uma dança.

***

Ou melhor, seria possível observar esse amor, se os deuses não tivessem prendido o Fogo para iluminar o Olimpo… Assim, a Água já não tinha uma razão para voltar a ganhar forma, pois jamais voltaria a dançar com o seu amado, permanecendo por isso na forma líquida, deixando-se preencher pelo calor do Sol e evaporar para o céu que se tornara azul. Quando voltava a fazer-se chuva, lá em cima no alto, as partículas de Sol misturavam-se com as de água, criando um arco com mil reflexos de todas as cores, feito daquilo que deveria ter durado para sempre. Agora que pensava nisso a sério, embora tivesse criado algo tão bonito como o arco-íris, a sua gente roubara o Fogo ao seu destino, roubara a eternidade a algo eterno e a beleza que criara representava algo triste. Talvez ele merecesse mesmo estar ali, talvez todos os deuses merecessem, talvez da próxima vez ele cumprimentasse a águia como uma amiga, como a mensageira de um merecido destino. Estando ali, acorrentado, humilhado, há milhares de anos, só naquele momento lhe ocorrera que o que mais desejava não era sair dali, mas sim ter roubado o Fogo para o devolver à Água e não à humanidade.

O titã voltou ao presente quando viu uma sombra a aproximar-se… estaria a águia de volta para o torturar de novo tão cedo? Os contornos ficavam cada vez mais visíveis aos seus olhos, mas pensou que o enganavam, pois parecia estar a distinguir um homem e o que parecia ser um centauro. Mas poderia mesmo ser?