Correr 22, Azul

OliviaGrilo

Havia uma menina chamada Azul, que tinha caracóis morenos, olhos verdes, e um belo sorriso que, no entanto, rapidamente ia morrer. 

Esta história não é a de um belo arco-íris e não provoca sorrisos. Esta história é sobre a vida da Azul durante a Segunda Guerra Mundial.

Era o dia 14 de dezembro em 1940 e a Azul tinha 16 anos. Eram 8:30h da manhã e Azul estava a encher a boca de panquecas, enquanto a mãe estava a fazê-las. Depois, vestiu o uniforme da escola e colou a estrela na camisola cinzenta. O pai bebia o seu café e lia as notícias. Era a última vez que tudo ia estar normal, porque algumas horas mais tarde, a Azul iria correr pela sua vida. Literalmente.

Eram 11:53h quando a história da Azul mudou para pior. Estava na aula de Matemática a contar os segundos até à hora de almoço, mas nunca chegou a comê-lo. Aconteceu tudo muito rapidamente. As tropas entraram e, primeiro a Carolina, depois o António, toda a gente ficou em pânico. Foi então que a Azul viu uma coisa extraordinária: uma janela. Aberta. Antes de pensar, a Azul saltou para fora da janela e correu. Correu pela vida dela e pela vida que queria manter. A Azul tinha noção de que, se calhar, nunca mais veria os pais ou os amigos e tinha muita noção de que havia grande probabilidade de ser encontrada e morta. Mas não queria morrer num campo de concentração e queria, pelo menos, tentar sobreviver.

A Azul correu até não sentir as pernas e os olhos estavam molhados com as lágrimas que nasciam dos pensamentos de que ia ser descoberta. Parou numa floresta escura e assustadora, deitou-se numa pedra e adormeceu.

Acordou no dia 18 de dezembro com o som de um choro, mas não era ela quem chorava. O som vinha de um arbusto. Sentia-se suja e cansada e tinha medo do que estaria dentro do arbusto, mas olhou e viu uma menina. 

– Quem és tu? – perguntou a Azul.

– Sou a Anna, tenho 12 anos e escapei de um campo de concentração… Estou com muito medo. 

– Temos as duas – suspirou a Azul. 

E destes dois minutos nasceu uma amizade que iria prolongar-se para o resto da vida delas. O que restou. 

E rapidamente a Azul e a Anna se tornaram companheiras. Elas corriam de um lado para o outro a fugir dos nazis, sempre que viam suásticas tatuadas em homens e mulheres, e questionavam-se sobre quem podia ser tão cruel. 

No dia 8 de agosto de 1942 a Anna foi apanhada e morta. A Azul escapou antes dos nazis conseguirem apanhá-la. O seu coração estava esmagado como vidro partido. A melhor amiga tinha morrido em frente aos seus olhos.

A Azul escondeu-se na casa de uma família em 1943, desde que a Anna tinha morrido. Tinha roupa podre e não tomava banho há meses. Ela tinha chegado aos 19 anos e estava certa de que 90% da família e amigos estavam mortos. Estava deprimida mas queria lutar pela vida que escrevia num diário que já tinha antes do mundo ficar tão cruel com a guerra.

Certo dia, de repente ouviu um som que lhe fez o sangue ficar frio. Sabia tão bem o que aí viria: uma pistola e gritos. Hoje não havia janela. E em 5 minutos um homem com uma suástica no uniforme apareceu, gritou «ekelhafte Jüdin» («judeu nojento», em alemao). E desta vez não ouviu a pistola.

 

Olivia Grillo, 5.ºB.

(texto realizado em Oficina de Projeto – elaboração de textos narrativos mediante instruções restritivas de contexto e regras de procedimento e organização)